terça-feira, 12 de agosto de 2008

O ultimatum italiano (por:Pedro Santos Guerreiro DE)

O presidente da ENI nunca fala da Galp. A empresa pesa-lhe pouco no balanço e menos ainda na agenda - os "portugueses" não deixam que seja de outra forma. Os italianos têm dois tipos de capital em Portugal: da Galp e de queixa. Nas raras vezes em que fala da Galp, é para dizer que a ENI está mal na empresa. Sempre esteve e sempre estará - enquanto estiver. O "tudo ou nada" da ENI é uma confissão de incapacidade do maior accionista da Galp, que tem um terço do capital, mais do que qualquer outro (o terço da Amorim Energias é uma ilusão de óptica, a empresa é partilhada por Américo Amorim e pela Sonangol - e quem domina são os angolanos). Qualquer accionista da ENI fará uma boa pergunta se questionar o seu presidente por que persiste ele numa empresa em que tem dinheiro mas não tem poder. "Dividendos e mais-valia potencial" é uma boa resposta, pois as acções da Galp têm valorizado à velocidade das descobertas de petróleo no Brasil. Mas convenhamos que isso tem muito mais a ver com sorte do que com a ENI, que tem o direito de querer deixar de ser accionista numa trela e passar a gerir a favor dos seus interesses.Porque o pior é estar contra os interesses da Galp, e é nisso que os accionistas da empresa se vão digladiando há anos. O Estado não soube sair da empresa e, desde que ela tem capital privado que é um viveiro de interesses divergentes. Primeiro foi a Petrocontrol, uma espécie de Selecção Nacional, que esteve mais interessada na mais-valia do que na estratégia da empresa. Veio a ENI, em 2000, ficando com um terço do capital e o direito de aumentar para 40%. Novos Governos vieram e todos trataram mal os italianos, sempre temendo que eles passassem o terço de capital. Não faltaram interessados na empresa, de Ricardo Salgado a Vasco de Mello, de Frank Carlucci a Ilídio Pinho. Acabou por ser Américo Amorim a ajudar o Governo a travar os italianos, na cruzada já aí liderada pelo ministro Manuel Pinho. Mesmo desde esse desfecho, há menos de três anos, não tem havido se não simulação de paz. Meses depois já Amorim hostilizava o ministro, impondo o seu presidente numa comissão executiva em mudança. Os indesejados espanhóis da Iberdrola saíram do "ninho de cucos", para o qual foram convidados, mas sem consumação, os russos da Gazprom. Fica agora visível que a coexistência entre a ENI e Amorim pode deixar de ser pacífica. Eis-nos outra vez na estranha situação em que os accionistas parecem estar empenhados em agir contra a Galp. O Estado ataca a empresa (preços da gasolina e imposto Robin dos Bosques) e pouco depois anuncia a venda dos 7% que lhe restam. A ENI diz que vende ou que compra, não se percebendo bem ao que vai. Quando há semanas a ACS declarou que ia vender a posição na Unión Fenosa e que quem lha comprasse teria de lançar uma OPA, a mensagem foi clara e as acções dispararam. Mas a afirmação da ENI foi obscura e especulável. Quer vender? A quem? A angolanos, russos ou líbios? Ou quer comprar? A quem? Quer os 7% que o Estado vai fazer de conta que vende (através de obrigações convertíveis em acções com direito de preferência… do Estado)?Os maiores atropelos aos interesses da Galp têm sido feitos pelos seus próprios donos e quase sempre em nome de um suposto interesse nacional. O Estado sairá, mantendo um cadeado nas mãos da Caixa Geral de Depósitos e a gestão da empresa parece tentada a não ser passiva no redesenho do mapa ibérico da energia, com notícias sucessivas de que a empresa já estudou juntar-se à Fenosa, lançar uma OPA à EDP e agora aliar-se à Repsol. De desmentido em desmentido, vai-se confirmando que há uma máquina do tempo na Galp, que a faz oscilar entre a repetição do passado e a hesitação do futuro.

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