terça-feira, 5 de agosto de 2008

Carros eléctricos precisam de energia nuclear

Vice-presidente da General Motors em entrevista.
Sergio Piccione
É o braço direito do presidente da General Motors, Rick Wagoner, no que diz respeito ao desenvolvimento de novos produtos. Aos 76 anos, Robert Lutz segue com atenção as mudanças dramáticas na procura nos Estados Unidos, devido ao aumento do preço dos combustíveis. Uma mudança que, devido à sua rapidez, apanhou desprevenidos os fabricantes, garante o vice-presidente da GM.
Como vai a General Motors (GM) mudar nos próximos anos, com a aplicação das medidas de reestruturação que foram anunciadas?
De uma forma positiva, espero. Vamos deixar de produzir 300.000 unidades de jipes todo-o-terreno e ‘pick-up’, mas ao mesmo tempo iremos incrementar a nossa produção de modelos utilitários, com menores consumos. Ao mesmo tempo tentaremos aumentar a nossa liquidez.
Preocupa-vos a possibilidade de deixarem de ser o primeiro fabricante mundial?
É a menor das nossas preocupações.
Os norte-americanos vão renunciar definitivamente aos todo-o-terreno e aos seus motores potentes?É difícil de dizer. Neste momento, todo o mundo está preocupado com o preço dos combustíveis, que duplicou em apenas num ano. O que é claro é que agora, quando alguém entra num concessionário para comprar um automóvel, a primeira coisa que pergunta já é quanto é que ele gasta. Mas a má notícia não é essa. O que é mau é que as pessoas decidiram continuar a conduzir o seu automóvel velho, em vez de comprar um novo. Foi isso o que fez as vendas cair. Se o preço dos combustíveis continuar alto, o mercado norte-americano vai transformar-se. E os carros americanos vão ser do mesmo tipo dos que se vendem na Europa.
Esta é a oportunidade de produzir automóveis aceitáveis em todos os mercados.
É uma oportunidade que, de facto, existe. Mas o que economicamente não tem sustentação é pretender vender nos Estados Unidos os pequenos automóveis produzidos na Europa.
Porque...
Por causa da paridade euro-dólar. O resultado que temos obtido com o modelo Astra nos Estados Unidos tem sido decepcionante, mas temos que compreender que substituiu um modelo que custava 12 mil dólares e, por ser fabricado na Europa, temos de vender o Astra a 18 mil dólares.
Porque é que é tão importante para a GM vender o modelo Volt, que pretendem lançar em 2010?
Por várias razões. Em primeiro lugar, porque é uma forma de poder cumprir com todas as regulamentações respeitantes às emissões de CO2. Trata-se de um veículo que tem uma autonomia de 60 quilómetros, funcionando electricamente. Quando a carga das baterias termina, um gerador accionado por um pequeno motor carrega-as. Com isto, ultrapassa-se o medo dos consumidores de que os automóveis eléctricos parassem, apesar de, segundo os nossos estudos, esses 60 quilómetros corresponderem aos que um utilizador médio faz por dia, para ir trabalhar.
Mas subsiste o problema de sobrecarga da rede que recarrega as baterias.
A rede actual dos Estados Unidos aguentaria a recarga de milhões de automóveis sem problemas. E na Europa a situação é idêntica. O nosso automóvel terá um computador que verifica a rede e só permitirá a recarga das baterias durante a noite, em horas de baixo consumo. De qualquer forma, os Governos devem entender que se queremos passar dos combustíveis fósseis aos automóveis eléctricos, precisamos da energia nuclear.
Haverá uma versão do modelo Astra com a tecnologia do Volt, no futuro?
Não decidimos nada a esse respeito mas, dado que o Volt utiliza a mesma plataforma do Astra, poderia ser possível.
O que é que vai acontecer à marca Hummer?
É a única marca que vamos vender. É a única que tem uma tecnologia própria, particular. Acredito que pode ser atractiva para outros fabricantes. Para nós deixou de o ser porque tínhamos de investir muito dinheiro para reduzi-lo em tamanho e diminuir o seu consumo.
Que acontecerá se ninguém a comprar?
Prefiro não pensar nessa possibilidade.
Chevrolet Volt: alternativa dentro de dois anos
A versão final do Chevrolet Volt, o carro eléctrico da GM, foi conhecida em Junho passado e deverá chegar ao mercado dos EUA dentro de dois anos. “Com a tecnologia E-Flex, o custo de circular com o carro alimentado a electricidade ronda 1,5 euros por cada 100 quilómetros percorridos, contra cerca de 7 euros/100 km no caso de um carro convencional a gasóleo. Uma diferença que depende do preço dos combustíveis”, explica ao Diário Económico, Miguel Tomé, director de comunicação da GM Portugal. S.P.M.
Exclusivo “El Mundo”/Diário Económico

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